Páscoa

A Páscoa foi sempre um lugar estranho. Cheio de lutos. As igrejas enchiam-se de crepes roxos e negros e ficavam carregadas de tristeza. Até minha mãe católica pouco dada a sacristias, se vestia de escuro. E a cidade tornava-se ainda mais taci-turna.
A adensar este ambiente, a E.N. (Emissora Nacional, a que as más línguas chamavam «maçadora nacional») transmitia «música de enterro», própria para funerais. Música sinfónica pesada, que nos azedava a alma. Para não destoar (voluntariamente ou à força), as emissoras locais calavam-se.
O luto só aliviava na Sexta-Feira. E no sábado tudo mudava. Com o fim da Paixão, o recalcamento dava lugar à euforia e na Ribeira queimavam o Judas, ante os aplausos da multidão que, no meio dos estouros das bichas de rabiar, extravasava de apertos e dificuldades. (Diziam que a queima era vigiada pela PIDE, pois alguns mânfios punham o Judas a dizer piadas contra o regime.)
Outra coisa intrigante era os discursos consagrarem a «Ressurreição da Vida» e falarem da matança da «Páscoa» com números que quanto mais altos melhor sinal davam das compras visando o almoço de domingo. Afinal, a matança era de animais. Do boi da Páscoa para assar no forno com batatas e cebola, prato obrigató-rio. Com arroz. Alta, média e baixa burguesias, pobres e remediados, faziam dele ritual obrigatório. A seguir, o creme e o pão-de-ló. Vinho do Porto e amêndoas. A felicidade integral com a família reunida na terceira consoada do ano. E a mesa ficava posta para receber o Compasso – “serabade” e seus acompanhantes que, à tarde, batiam à porta.
Deste lugar estranho, o que mais recordo é a sonoridade estridente da sineta do compasso, levando um certo espírito da Páscoa à cidade profunda e popular. Isso e o sabor incomparável das amêndoas de licor. O resto, o tempo esfumou-o.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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