Quadras São-Joaneiras

Uma grande tradição são-joaneira é poética. Em noite de feitiços, com Eros à solta, Afrodite mandando setas a torto e a direito, augúrios casamenteiros, fantasias ao nascer do sol, rituais de fertilidade no saltar das fogueiras, mil e uma ervas bentas com o seu significado, etc., etc., não admira que a poesia apareça na sua expressão mais simples, acessível, operatória e funcional. Para a maioria da população que, em país furiosamente poeticomaníaco, exerce a arte de poetar, o resultado chama-se, resumindo, quadra. (A propósito: sendo o concurso de quadras de S. João do JN o maior – que eu saiba – do país e arredores, por que razão não está incluído no Programa oficial das Festas da Cidade?)

Vem este arrazoado a propósito de um desenho do saudoso Zé Penicheiro que há tempos me foi enviado por amigo certo, mostrando um casal em estado alegre e bem bebido, cantando uma quadra que diz assim: «Eis aqui os dois romeiros / Que alegres eles vão / São do Porto! São Tripeiros / A festejar S. João!» Pois, glosando o tema, o decano dos humoristas do Burgo, João Manuel, que, poetando com tempero, vai cultivando o envelhecimento activo, acrescentou os seguintes condimentos à voz do romeiro (os versos sanjoaninos também davam para a crítica): «Este Zé é reformado / Pouco tem a receber / E como anda encravado / Vai bebendo p’ra esquecer. // Quando recebo a Reforma / É coisa que não consola / Decerto que é uma forma / De dar ao pobre uma esmola! // As “contas” são sempre feitas / Pelos Amigos de Peniche / Os tais de costas direitas / E o Zé Povo que se lixe!»

Estão a ver como, apesar da mó de baixo em que andamos, o espírito rebelde, folgazão, trocista e, sobretudo, atento aos sinais dos tempos da gente do Porto continua activíssimo e a não dar tréguas ao cinzentismo?

©helderpcheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.