Questão de alturas

O tema de hoje é prosaico. É trivial e vulgar, mas paciência, como dizia Herculano, nem todos podemos ser filósofos e falar de coisas transcendentes. E passo a expor: de há uns tempos para cá, sinto-me frustrado, diminuído (ou, se calhar, diminuto, reduzido). Coube-me na rifa ser baixo, à volta de um metro e sessenta e sete, conforme os dias. Quando nasci era assim o destino da raça nacional (embora a propaganda do Regime garantisse ser superior devido aos feitos gloriosos da Pátria). Estava condenada a não passar de cepa torta. A ser pequena.
Confesso que, durante anos, tal condição nunca me afectou. Nem aquentou nem arrefentou, sobretudo porque, estribado em Fernando Pessoa, me tornei resiliente (esta, sim, é palavra muito in, selecta, muito no top). Dizia ele: «Eu não sou do tamanho da minha altura, mas do tamanho daquilo que vejo» e ponto final. Animou-me.
O problema é que dos tais tempos para cá ou os portugueses cresceram mais, os metros dos arquitectos aumentaram alguns centímetros, os canalizadores já não sabem medir, ou, por causa do turismo, começaram a colocar os mictórios muito acima da capacidade elevatória da gente como eu. Em certos locais, nem em bicos de pés lá se chega. Só com andaime, atirando ao lado ou para fora. Uma chatice. De maneira que, além de consignar aqui o meu veemente protesto pela colocação generalizada de urinóis fora das minhas possibilidades, venho solicitar à Il.ma Câmara que indefira o licenciamento de locais públicos cujos ditos não satisfaçam as necessidades e apertos da humanidade infra o metro e oitenta. O que se passa atenta contra direitos inalienáveis do homem: ser baixo e urinar à vontade.
(Como lhes disse no início, o tema era prosaico e, no mais pleno sentido do conceito, sem elevação. Paciência. É a vida!)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.