Requiem pelo Costa

Para que não digam que ando atrás das notícias da TV, vou-me citar a partir de um texto já antigo que escrevi para a obra “Grande Porto”, publicada em 1986. E diz assim: «Nas Devesas fundou-se em 1865 a Fábrica do Costa ou Fábrica de Cerâmica (e Fundição) das Devesas, de que era proprietário António de Almeida Costa. Os edifícios da Rua do Conselheiro Veloso da Cruz (escritórios, armazéns e oficinas), construídos entre 1871 e 1877, constituem um dos mais completos monumentos do património industrial.»
Depois, o assunto desdobrava-se nos pormenores da produção característica da fábrica e da personalidade empresarial e artística do seu fundador, etc. Chamava a atenção para o depósito da mesma no Porto (o edifício mourisco da Rua José Falcão) e rematava com um alerta, apelo e desafio a quem de direito: «Em 1920, passou a fábrica a denominar-se “Companhia Cerâmica das Devezas” e ali permanece com a degradação à espreita. Quem vai resistir à sua substituição por um conjunto de gaiolas de cimento? Poderá Gaia perder a oportunidade de fundar o museu industrial que documenta uma parte da sua história (e do País)? Quem tem coragem para salvar o legado do Costa das Devezas?
Nunca tive pretensões nem sequer de admitir ser mais esperto do que os outros. Mas a verdade é que, há 30 anos, advertia para a necessidade de proteger as instalações da Fábricas das Devezas. Ainda intactas e repletas de um espólio ímpar, com um golpe de talento, poderiam constituir hoje um dos melhores museus industriais europeus no seu género. Mostrou há dias a RTP1 o estado a que chegou o conjunto: ruína, degradação, abandono, pilhagens. Assim trata o país a sua memória e a sua História. A espinha dorsal da sua integridade cultural. Como se dizia na minha terra: «Agora é tarde, Inês é Morta.»

©helderpacheco2015

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
%d bloggers like this: