Rescaldo natalício

Nos tempos de escrever à mão cartões de Boas Festas, cheguei a receber 50 e mais em cartas e postais. Depois, com a civilização tecnológica, internet e telemóvel foram-se substituindo àqueles meios da Idade da Pedra. Mesmo assim, neste Natal, ainda recebi 12. Só falta o tardio e habitual de Sister Catherine O’Mara, freira em Derry, que conheci na Universidade do Ulster, em 1973, e, desde então, me brinda com lindíssimos votos. E também o de um amigo, poeta talentoso, que, anualmente, me enviava belo poema da sua lavra. Desistiu de poetar ou, com a austeridade, de ser feliz.
De qualquer forma, dos recebidos, um compensa da indiferença que vai caindo sobre o gesto mágico da escrita. Foi-me enviado por um brilhante ex-jornalista prematuramente remetido para o Clube dos Poetas Mortos em nome de crise anterior à actual. E diz assim: «Mais do que cumprir mera tradição natalina, ordena o coração desejar-lhe nestes límpidos dias de dádivas, o regresso à criança-infância, ao encantamento dos aromas a canela e açúcares em calda, das luzes de muitas cores, do verde pinheiro enfeitado e do humilde presépio templo de amargoso carinho.
Eis o doce e nítido tempo do amor que apazigua e dá sentido à vida, das alegrias que até comovem, da partilha que nos alimenta e revigora. E saibamos sempre deslumbrar-nos com os brinquedos no sapatinho, que são os acenos, as atitudes, o pensamento, a lembrança dos amigos que respiram dentro de nós.
Então, feliz Natal para si e para quem mais estima e ama.» (Enquanto houver gente a escrever assim, nenhum Acordo Ortográfico consegue matar a beleza íntegra e perene da língua portuguesa. Nem a ditadura dos mercados, o relativismo mais soez e a barbárie tecnocrática conseguem rasourar o sentimento mais profun-do do espírito do Natal. Acho eu.)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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