S. João

Quem lida com a memória arrisca-se a passar por saudosista. Ou coisa pior. De maneira que, para não ser insultado por algum bem-pensante pelo que vou dizer, socorro-me de Patrick Modiano (Prémio Nobel, impõe respeito) e de uma frase sua: «Na vida, o que conta não é o futuro, é o passado.» Assim, não tendo outro património se não o passado e não querendo disfarçar as agruras do presente com as ilusões do futuro – como fazem os políticos -, prefiro adoçar os dias com as lembranças de quanto de bom deixámos para trás. E nelas está o S. João.

A festa. A emoção de uma noite de Verão. As cascatas. O tostãozinho (para a fava rica e não) para o Santo. As guerras do alho. (A doçura do teu olhar naquela noite na Foz.) O café com leite e o pão com manteiga. Os apalpões em rabo novo, velho e assim-assim. O fogo da meia-noite na Serra do Pilar. Os bairros iluminados nos mil arraiais espalhados pela cidade. A Ponte a abanar com as multidões vindas de Gaia. Os bailes: Campo Pequeno, Fontinha, Eirinhas, Entrequintas, Vilar, Carvalheiras, Noeda, S. Vítor, Leal (e mais cem). O Poço da Morte, nas Fontainhas. Os oceanos de gente em Santa Catarina, 31 de Janeiro, Clérigos, Batalha. A seita à porta do Palladium a menar as miúdas disponíveis. A ruda no nariz das trombudas e os cravos no das simpáticas. As decorações da Baixa. Os monumentais concertos de S. João à frente da Câmara. O baile, o arraial e a cascata dos Pilotos. A Lã Maria. A varanda do Snr. Quirino para ver o fogo, na Ribeira. (Nessa noite, fui-te chamar à Rua do Breyner.)

Portanto, o S. João era afecto e sentimento. Era música para os nossos ouvidos, nas emoções de um passado intocado onde repousam as recordações. E, como perduram, este passado – ao contrário de outros que podem ir andando – é para guardar. Até à eternidade.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.