Salve

Como diriam os romanos, nossos pais, que nos ensinaram a falar, salve o João Manuel que hoje completa a bonita soma de 94 anos. Convenhamos: é uma carga de Primaveras e, se lhes ajuntarmos verões e outonos, é um não mais acabar de tempo.
Primaveras destas não são para gente normal, mas sim para os privilegiados que atravessam o tempo, iluminando a vida dos outros com graça, desvelo, fraternidade. Acrescentando uma telha à casa comum, chamada cidade. Varrendo a testada da porta, na mira de limpar a rua. Dando-se a peditórios do Padre Américo, Cruzadas de Bem-Fazer, Lar do Comércio, Hospital Maria Pia – num currículo solidário a juntar aos milhões de pilhérias de 68 anos a fazer rir na Voz dos Ridículos. E outros gestos imponderáveis.
Sim, estas são primaveras fora do comum e fazem do seu usufrutuário o sobrevivente de um mundo em extinção. O mundo dos gazetilheiros e inventores de fábulas, dos poetas graciosos (e maliciosos) e motejadores. Dos bairristas que amam a cidade e, contra quem quer que seja, a defendem sem esperar retorno. Por princípio. Por quem assume o orgulho e a condição de ser portuense.
O mundo quase extinto dos criadores de fantasias que, numa época apressada e inimiga do não rentável, praticam o prazer de chalaçar assim: «Onde moras João Manuel / Teu lugar habitual? / Minha casa é um Quartel / E quem manda é um general / General Norton de Matos / É o nome da minha rua / Não tem cisnes nem tem patos / Mas às vezes “pactua” / No 6 e 8 da porta / Há sempre quem o comprove / A mim o que mais importa / É não ser 69! / Mas não levem prá malícia / O que achava natural… / Era número de Polícia / Da Câmara Municipal!»
Por tudo isto e por mil e uma outras coisas mais que aqui não cabem, salve, João Manuel ou, traduzindo o que diziam os romanos: «Eu saúdo-te».

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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