Tratamentos

Um amigo, cheio de boas intenções (demonstrando que, como diz o rifão, delas está o inferno cheio) perguntou-me por que motivo, ao dirigir-me à Câmara Municipal da Invicta, a tratava por Excelentíssima e, ultimamente, Ilustríssima. E até avançou se eu estava a brincar.
Não tendo a estultícia de me tomar demasiado a sério (o que se torna um tanto enfadonho), neste caso falo compenetrada e apropriadamente, segundo as pisadas dos portuenses de oitocentos. De facto, em 13.5.1804, o Príncipe Regente, D. João, promulgaria o Alvará pelo qual à nossa Câmara foi concedido o título de Ilustríssima e o tratamento de Senhoria.
Para que os tripeiros que, resistindo à absorção centralista e à lavagem ao cérebro da globalização, possam manter vivos os atributos de diferença e identidade (coisas mal vistas nos tempos que correm), transcrevo os termos de tão honroso Alvará. Diz assim: «Atendendo à representação e consideração da Câmara da cidade do Porto, a segunda do Reino, e as circunstâncias das pessoas que nela costumam servir, e querendo dar-lhe um testemunho manifesto e perpétuo da singular estimação que dela faço, e do quanto são por Mim aceites os seus serviços e demonstrações de lealdade e amor a Minha Real Pessoa e à Causa Pública, como louvavelmente tem praticado, e confio continue a praticar: Hei por bem, por estes respeitos e para honrar a mesma Câmara, fazer-lhe Graça e Mercê do Título de Ilustríssima, e do Tratamento de Senhoria. Este se cumprirá como nele se contém e valerá como carta passada pela Chancelaria (…)»
Fica assim justificada a grafia e o modo de tratamento da Câmara da minha cidade natal e bem-amada. Mais tarde seria oficialmente apelidada de Invicta e, pelos românticos, chamada de «Eterna». Mas isso são contos mais largos e não cabem neste aranzel.

©helderpacheco2015

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
%d bloggers like this: