Túnel da Ribeira

Nos tempos homéricos da minha adolescência, em 20.5.1952 ficou pronto o Túnel da Ribeira. Esperou uma semana para ser inaugurado, com pompa e circunstância: era o primeiro túnel rodoviário do país. Mesmo assim, cheio de críticas e azedumes de quem não gostou de ver aquele boqueirão debaixo do Codeçal, a desembocar nos Mercadores.

Há quem deteste túneis, preferindo engarrafamentos, bichas e poluição nas ruas. Os antepassados destes fartaram-se de criticar o túnel e inviabilizaram o de Gonçalo Cristóvão imprescindível à cidade, prisioneira das dificuldades de travessia expedita nascente-poente e vice-versa. E nem quero pensar no resultado da patologia urbana então aventada, de uma via rápida passando defronte (e em cima) da Ribeira e dos Bacalhoeiros, ligando os Guindais a Miragaia.

A abertura do túnel teve aspectos caricatos e trágicos. Na pressa, mandaram abaixo parte da Igreja do Ferro que teve de ser reconstruída. E, esquecendo-se de que ali havia outro túnel, acertaram no da Alfândega, interrompido por uns tempos. E morreu gente. Enfim, mesmo considerando que o remate do lado da Ponte é um desastre urbanístico, o túnel lá está salvando a Ribeira. E recomenda-se.

Desde a inauguração, na frontaria granítica da entrada ficou um rectângulo que diziam destinado a um baixo-relevo escultórico. Esqueceram-se. A inércia foi-se instalando e já ninguém ligava a que faltava rematar aquilo. Com surpresa minha – não habituado a milagres –, a Il.mª Câmara entendeu agora pôr fim a 63 anos de atraso, colocando no buraco vazio uma obra de arte. Não posso deixar de aplaudir: 1.º – por ser um notável painel de Fernando Lanhas; 2.º – por trazer arte moderna para o espaço público; 3.º – por integrar a cultura contemporânea (de categoria) no ambiente histórico. Muito bem.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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