Um bairro

Sem puxar ao drama falarei duma das tragédias a que a cidade assistiu ao longo do último meio século. Assistiu com indiferença à destruição do seu tecido social e humano, sujeitando inúmeras comunidades à exclusão. Basta ver as Eirinhas, Carvalheiras, Fontinha, Leal, Lomba, Marinhos, para se compreender o esvaziamento. Por desqualificação da cidade antiga e abismo dos custos da habitação entre o Burgo e as periferias.

O habitante de um bairro a caminho da perdição descreveu-me a sua frustração face ao declínio do sítio onde vive há 70 anos. Onde nasceu, juntou família, criou os filhos. Onde, em ambiente operário, foi feliz. Retenho palavras de quem tinha direito a outro remate de vida.

Chama-lhe «Bairro dos Mortos» (de 50 famílias, restam 16). Nele «vivia gente com sentimentos não só de amizade mas também de solidariedade e amor, que hoje deixou de habitar connosco! (…) no cemitério, não há recordações de tempos passados, de nada nem de ninguém, e aqui há! (…) aqui, na casa que foi do Sr. Olímpio e da Elvirinha, ali, na casa que foi do Sr. José e da Miquinhas, acolá a casa que foi do Sr. Francisco, o forrador e da Alexandrininha, mais além da do Sr. Monteiro e da Miquinhas…» E adianta: «à noite, trancam-se as portas e só os velhos ficam nas casas quase em ruínas (…) Há muitos anos que não se fazem obras nas casas do Bairro. (…) Isto não interessa nada (as casas e as pessoas que as habitam), é tudo para deixar cair.»

A reabilitação, através de projectos à altura da tradição convivial destes bairros, teria sido o caminho para impedir a cidade de se tornar invisível. Mas, dirão, não somos a Suécia ou a Holanda. Pois não. Somos um arremedo de sociedade onde o interesse dos mais fortes impõe a lei e a justiça. Onde a dimensão social do planeamento urbano é uma abstracção.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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