Um certo natal

Como não concordo com a fórmula «O Natal é quando um homem quiser», por ser demasiado semente, fermento, redenção, esperança para depender do livre arbítrio de cada um, aproveito a época para falar dele. Agora que, sim, é Natal.
Em 6 de Junho deste ano, comemoraram-se os 70 anos do Desembarque Aliado na Normandia, saga heróica que entusiasmou os aliadófilos do Burgo (como meu pai e os amigos). Um ano depois, em Maio de 1945, os nazis capitulavam, a II Guerra terminava e na Baixa, durante dias, multidões exultaram de contentamento (apesar de selvaticamente reprimidas pela PSP a pé e GNR a cavalo), antevendo o fim da Ditadura. (Ilusões!) A cena mais histriónica foi o enterro do Hitler, que uns castiços organizaram e fez sensação.
Embora Portugal tivesse escapado à destruição, não foi poupado às dificuldades alimentares, carências e, para muita gente da cidade (sem, ao menos, alguma couve galega para o caldo de unto, já que azeite não havia), a fome. Negra e persistente (enquanto isso, então como agora, uns tantos enchiam barriga e bolsos com a crise).
E veio então o Natal de 45. Em paz, mas a sentir privações, o cobrador António Mateus e Filhos entregou aos, digamos, clientes um cartão de Boas-Festas, versejando: «Boas-Festas meus senhores / Por já estarmos a chegar / Devem andar mais contentes / Pela guerra terminar. // Isto ainda não está bom / Ainda está um pouco mau / Mas sempre nos aumentaram / À espinha do bacalhau. // Como a gente anda enjoada / De comer tanta sardinha / Agradeço a consoada / P’ro bacalhau sem espinha.»
70 anos depois, muita gente mantém-se mal. Glosando os versos do snr. Mateus, a continuar assim temos de nos habituar às espinhas de bacalhau, pois, contrariamente aos tempos da II Guerra, até a sardinha se converteu em artigo de ourivesaria.

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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