Um Porto Charlie

Cidade liberal, vintista, setembrista, patuleia, republicana, democrática, apoiante de Norton de Matos e promotora de Humberto Delgado, com tudo isto junto ou separado, conforme as épocas, o Porto só podia adicionar ao seu carácter o apego à liberdade.
Desde a revolução de 24 de Agosto de 1820 preparada e levada a cabo no Burgo, com o principal objectivo de elaborar uma constituição consagrando os «direitos naturais do homem e do cidadão» e a «liberdade e igualdade perante a lei», cimentando tal opção numa trajectória histórica de rebeldia, independência e altivez perante bispos, nobres, invasores, ditadores e afins, o Porto preza a liberdade. E, nela, à cabeça, como princípios seminais, a liberdade de expressão, a liberdade religiosa e a liberdade de imprensa.
Percebendo desde cedo que a fortaleza da democracia é uma imprensa livre, o Porto assumiu-a como inseparável do seu património cívico. Basta consultar as estatísticas: até 1895, existiram na cidade 380 jornais (sendo 26 humorísticos). Contando entre 60 000 e 146 000 hab., é notável. Entre 1896 e 1925, existiram 355 jornais (32 humorísticos) para 202 000 hab. Depois disso, com a censura e os obstáculos de toda a espécie, o número reduziu drasticamente. A imprensa é, portanto, parte integrante do ADN tripeiro e, como tal, do meu.
Por isso, não posso, como portuense, deixar de repudiar o infame assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo perpetrado pela pior escumalha que o mundo moderno pariu à superfície da terra. E, mais: como prova da rejeição da intolerância e da barbárie e afirmação da liberdade, proponho à Ex.ma Câmara Municipal que dê a uma rua da cidade o nome do caricaturista Georges Wolinski, tão chegado ao Por-to por laços de amizade. Afinal, vendo bem, nós, na Invicta, «sommes tous Charlie».

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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