Uma homenagem

Cultiva-se, entre nós, a arte do esquecimento ou da indiferença. Ou da ingratidão. Mor disso, gente que faz avançar o mundo, tornando-o «mais habitável», é frequentemente vítima de tais moléstias.

E devemos também entender que, em país do tamanho de uma quinta, lóbis, confrarias e afins decidem, intrigam, ostracizam e promovem muitas vezes não pelo mérito mas pela cor dos círculos que se frequenta. A independência é doença mortal e considerada impertinente. Adiante.

O Município gaiense saldou agora a dívida acumulada para com um seu filho adoptivo, que ali, há 46 anos, assentou casa, cama e morada permanentes: Albano Martins. E pagou o que lhe devia, através de um ciclo com o título “Uma vida de letras e afectos”, organizado pela Biblioteca Municipal daquela cidade. Integraram-no uma excelente exposição e uma série de conferências sobre a vida e a obra do Poeta. Encerrando-o com chave de ouro, prata e platina, no Museu Teixeira Lopes.

Poeta maior da tradição lírica da clareza e da contenção, manipulador exímio da expressividade da língua portuguesa – «água pura da “fontana fria”» e cristalina – na arte difícil e sublime de conjugar a música e o silêncio, Albano Martins representa a «ars poetica» no mais requintado patamar.

Ou não tivesse escrito, com palavras cheias de terra, tempo e realidade. E alegria, claridade e transparência: «Herdámos uma casa. Para nela morar. Para olhar, de seus verdes terraços, o horizonte do mundo. Uma casa chamada futuro. Chamada esperança. Ou chamem-lhe antes vida, se quiserem.» É por estas e por outras impressões vibrantes do quotidiano que daqui felicito o município gaiense por tal homenagem. Se reconhecer o mérito de alguém já é de louvar, num poeta como Albano Martins ainda mais. (Opinião que vale o que vale, mas aqui fica.)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.