A Roda

Todos os anos recordo a emoção do S. João passado, da festa e do nela sucedido. É o meu Natal de Junho. E o meu arrebatamento, neste S. João ainda fresco, foi a roda gigante montada na Rotunda. A maior de sempre vista no Porto.
Indígena da Vitória (e provinciano) embasbaquei. Estaria sonhando? Mal vi a roda, ao passar de automóvel, tive de lá ir, a pé, de máquina fotográfica em riste, registar aquela inesperada fantasia. Como sou reaccionário ao digital e só faço diapositivos – tecnologia considerada passadista -, quase gastei um rolo. Ficou-me caro o embasbacamento, mas valeu a pena. Foi roda sozinha e acompanhada. Com Casa da Música, barracas de farturas, águia, leão e monumento. Com coluna e sem coluna. Com árvores e sem árvores.
Esta roda gigante foi, aos meus olhos, um ajuste de contas da cidade consigo própria. Há anos, em Dezembro, instalaram uma, minúscula, na eira da Relação, junto das paragens de autocarros. Pois logo apareceu um senhor dos críticos de serviço, todo abespinhado contra a roda. Que isto e aquilo. Uma ofensa ao lugar. Um atentado à Relação. Ao monumento, à memória e à História. À cidade e aos seus habitantes, etc. Uma desvergonha.
Fiquei abismado. Afinal ingleses e franceses são bárbaros, selvagens, estúpidos e incultos. Atrasados. Em Londres, próximo de Westminster e na frente do City Council, instalaram a maior roda da Europa, assinalando o London Millenium. E, em Paris, ao lado do Jardim das Tulherias e da Rua Rivoli, montaram a maior de França. Esta nossa esperteza pseudo-exigente, saloia e cinzenta de fundamentalismo de fachada culta, é um atraso estrutural. Uma tristeza burocrática. Por tal motivo, declaro o meu entusiasmo com a roda gigante da Boavista, bela escultura móvel animando a cidade. E faço votos para que regresse. Todos os anos.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 16/08/2015.

 
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