Coisas pouco finas

Nos tempos atrasados, a cidade tinha 330 000 habitantes, mas mantinha a escala da gente. Agora, com 100 000 a menos, desescalou-se. O progresso técnico, a redução de custos e o minimalismo urbanístico roubaram-lhe comodidades e serviços.
Nos tempos atrasados, quando alguém se sentia apertado, tinha, à mão, sentinas públicas, asseadas e providas de higienista irrepreensível. Em jardins e locais importantes o alívio estava à vista.
Quando nos tornámos europeus, matámos os cafés e começámos a perder qualidades. Importámos cabinas de mijar na box, abolimos empregos, criámos espaços desprovidos de recursos essenciais à única obrigação pessoal e intransmissível. Criou-se o pânico de fazer nas calças e foi o salve-se quem puder.
Em nome da eficácia, encerraram-se locais que integravam um património latrineiro insubstituível. Na Avenida estavam os de azulejo resplandecente, pareciam laboratórios e tinham, anexa, A Cave, adega popular e concorrida. E havia-os, em Carlos Alberto, Rotunda, Campo, Batalha, S. Lázaro, Marquês, Cordoaria, Arca d’Água, Av. Montevideu, etc. Felizmente a troika não viu os que restam, se não fechava-os.
Vem este ensaio de natureza pouco fina a propósito do comentário de uma leitora à crónica que escrevi sobre como melhorar a cidade. Diz assim: «não queria deixar de acrescentar que os parques de estacionamento, mais do que “pesadelos visuais” são PESADELOS OLFACTAIS. Após um fim-de-semana de festas são-joaninas e necessitando de pegar na carrinha da empresa que se encontra estacionada no parque subterrâneo aqui da praça, ia-me dando o fanico tal o cheiro nauseabundo por toda a parte. Mas infelizmente não é só nos parques. Como dizia o outro: “isto já lá não vai com palmas. Só à palmada!”»
Estão a ver: com a animalidade em alta ao que chegámos?

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 16/08/2015.

 
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