Uma Naçom, mas

Quando alguém fura o crivo das televisões centralistas, exulto. Foi o caso da visitante das Festas do Povo de Campo Maior que, depois de as ter elogiado, disse lá ter ido da cidade mais bonita de todas: o Porto. E acrescentou: «Uma Naçom». Assim é que é falar: zás, trás, pás. Sem complexos nem merdeirices.
Para resistir aos ímpetos dissolventes do Terreiro do Paço, a gente da Naçom tem de lhe enaltecer a diferença. E algo que cimentava a coesão cívica do Porto chamava-se associativismo. Revestiu múltiplas facetas e uma delas eram as Comissões de Festas.
Em cidade liberal, republicana e católica, as festas faziam-se, normalmente, aos santos dos lugares e, para isso, as comissões angariavam fundos, obtinham licenças, organizavam programas. Incansáveis, animavam a vizinhança e davam conteúdo à sua fé escondida no manto da religiosidade popular. No Porto do séc. XIX, contavam-se dezenas de festas espalhadas pelo seu território.
As mudanças dos tempos, um laicismo de vistas curtas e um catolicismo pouco Conciliar (basta ler a “Pastoral sobre Festas”, de 1943, do Bispo do Porto) mancomunaram-se contra este vibrante associativismo local. Em 1990, resistiam 15 ou 16. Graças ao apoio das autarquias e ao apego de alguns párocos, umas vão resistindo – com destaque para o S. Bartolomeu, grande atracção do Verão portuense. Outras dissolvem-se na indiferença.
Dizem que iluminações só natalícias, os arraiais são parolos, música na rua é ruído, barracas de doces provincianismo e as procissões estorvam o trânsito. Mas, afinal, se a grandeza das cidades é serem autênticas, queremos ou não um Burgo orgulhoso das culturas da sua gente? Ainda não se aperceberam que os lugares festivos «in the old faishoned way» (para os cosmopolitas entenderem) também tornariam o Porto competitivo?

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.