A qualidade do ar

O que ainda torna o quotidiano suportável é reler Eça de Queirós. Particularmente “Uma Campanha Alegre”. Está lá tudo sobre a actualidade política (Maio de 1871): «Há em Portugal quatro partidos (…). Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliável, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! Eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre.»
Eça alude depois às «irritadas divergências de princípios que os separam»: o Partido Regenerador é constitucional e lembra a necessidade da economia. O Histórico é constitucional e prova irrefutavelmente a urgência da economia. O Constituinte é constitucional e dá subida atenção à economia. O Reformista é constitucional e doidinho pela economia. E mais: «Todos quatro são centralizadores.»
Apesar do desencanto e do cepticismo, no dia de ir a votos lá irei. Disso, enquanto viver, não prescindo (acho, aliás, uma traição ao país não votar, quanto mais não seja para demonstrar desprezo ou repúdio). Lá irei, depois de procurar (à lupa) quem melhor defende as aspirações e o desenvolvimento do Porto e sua região, quem garante o combate ao centralismo e à corrupção, quem promove a Justiça e a dignidade do Estado Social. Pelo menos.
Mas não tenho ilusões e só acreditarei na Democracia Portuguesa, quando vir certos personagens que dela se apropriaram, serem julgados por crimes contra o Bem-Comum e metidos na cadeia. É urgente que, pela manhã, os portugueses possam ouvir na rádio: «O IPMA informa que hoje a qualidade do ar se apresenta incomparavelmente melhor.» Não é pedir muito.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.