Águas férreas

Um amigo, de S. Paulo, veio ao Porto e trouxe com ele um coronel que nunca viera à Europa. O que mais o impressionara na cidade era o predomínio da classe média e ser «muito arranjadinha» (urbanisticamente falando). Quanto à primeira, anos de terrorismo fiscal transformaram a classe média em pobre ou desempregada. Quanto à segunda, embora o Burgo não seja, comparado com a anarquia pato-bravística doutras paragens, motivo para nos envergonharmos, a verdade é que pode ser melhor.
E nem são precisas obras para encher olhos parolos. Pequenos gestos eficazes e o gosto pragmático da simplicidade chegam para transformar aleijões urbanos em marca cultural no ambiente.
Falemos das Águas Férreas. Em 1784, no sítio da Nogueira, em Cedofeita, foi descoberto um manancial de águas indicadas para o tratamento de «debilidade e langor». Em 1789, o Juiz-de-Fora solicitou à Câmara que «ouvisse os médicos-chimicos sobre as virtudes e qualidades das águas». (Disseram que sim.) Em 1804, a Câmara comprou o terreno, arranjou-o, construiu uma fonte para a utilização terapêutica das águas e colocou lá um guarda-vigia que facultava o acesso às mesmas.
O local era arborizado, com bancos de pedra para doentes e apaixonados. O Burgo chamava-lhe «Alameda da Saúde e do Amor». Romantismo adequado a quem gostava de namorar ao ar livre. Duzentos anos passados, o sítio serve de estacionamento e a fonte (muito elegante) está no Parque da Cidade.
Fazendo de Juiz da Paz, venho solicitar à Ill.ma Câmara a reabilitação daquele espaço desqualificado, de modo a convertê-lo em algo à altura do que o rodeia: a Casa da Pedra (onde viveu Oliveira Martins) e o Bairro da Bouça (projectado por Siza Vieira). Enfim, converter a falta de categoria num sítio atraente em cidade que não pode ser apenas Ribeira e Movida.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.