Envelhecimento activo

Dizia André Maurois que o envelhecimento é um mau hábito e quem trabalha não tem tempo de o adquirir. Nesta perspectiva, habituámo-nos, nos últimos anos, a resistir a tal inconveniente. Conheço por aí cada vez mais gente que, em vez de gozar a reforma, se vê obrigada, para fazer frente a compromissos e situações de emergência suas ou, sobretudo, de familiares, a trabalhar até aos limites da resistência, para evitar o descalabro, a ruína, a insolvência. Ou a pobreza.
Não – contrariamente ao que diziam os cómicos – que se tivessem habituado a viver acima das suas possibilidades, mas porque foram apanhados pelas armadilhas do crédito fácil, do desemprego dos filhos e do assalto fiscal aos rendimentos do trabalho.
Esta nova forma de envelhecimento activo, através do trabalho forçado para além do habitual, apresenta, apesar de tudo, vantagens para os próprios; não precisam de um PT (treinador pessoal, em inglês) para lhes orientar o esforço, poupam na frequência de ginásios e evitam andar por aí a correr para cultivarem a longevidade e o enrijamento dos tecidos. Nada disso. Enrijam e disciplinam-se e, no dia em que morrerem à tarde, ainda trabalham de manhã. Sobre esta moderna resiliência (palavra selectíssima) até ando admirado que as inteligências artificiais que deambulam pelo Terreiro do Paço com a missão gloriosa de fazerem a vida negra aos reformados não se tenham ainda lembrado de inventar um Decreto-Lei proibindo-os de exercer qualquer actividade. Nenhuma. Nada. Em absoluto. Tal medida traria de imediato o benefício para o país do rápido envelhecimento dos que, apesar da idade, ainda trabalham e a quem faltaria o antídoto contra aquele mau hábito. Morreriam, portanto, mais depressa os milhares de seniores que, abusivamente, roubam empregos aos novos.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.