Leis apropriadas

A vantagem de se viver numa cidade como o Porto é ela ser suficientemente pequeno para todos se conhecerem e suficientemente grande para as pessoas raramente se encontrarem. Ou nunca.
Por tal razão, cruzei-me há dias na Baixa com um amigo da minha criação (daqueles que andaram connosco na escola), que já não via desde o século passado. E foram cumprimentos, abraços, como estás mais a família, que tal a vida, etc. O costume. No meio de um café, no Guarany, confidenciou-me que, tendo-se reformado (de professor – excelente) aos 36 anos de serviço e pensando gozar o Outono e o Inverno dos dias o melhor possível, tivera de regressar ao activo. Por causa do passivo (conforme o Dicionário o «conjunto de dívidas, obrigações ou encargos que a pessoa tem»). Encargos com filhos à procura de emprego e, enquanto não emigram, vivem lá em casa. Para compensar disto e do assalto fiscal que lhe fazem, agarra tudo: aulas, explicações, biscates onde calha. Enquanto puder.
Para este e muitos outros acometidos pelo pecado de serem portugueses, encontrei uma solução. Pré ou pós-eleitoral, válida para qualquer governo: como no Brasil dos tempos da escravatura, aprovarem uma “Lei dos Sexagenários”. Ou seja: uma lei que liberte os escravos da austeridade com mais de 60 anos de terem de trabalhar para compensar da crise e dos impostos.
Consta que a lei brasileira, de 1885, visando a Abolição da escravatura em idade avançada, foi aprovada na convicção de que a maioria dos libertados morria logo depois, pelo que pouca despesa e prejuízo dariam. Pelo sim, pelo não, o melhor é, por cá, aprovarem na A.R. uma “Lei dos Octogenários” não isentos de aumentos de impostos e descontando para a ADSE o quádruplo do que é exigido. Para aprenderem a morrer atempadamente e não trabalharem até tão tarde.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.