Nos caldeireiros

A cidade pertencia-nos e cada rua, travessa, esquina era espécie de marca. Carimbo registado no ADN tripeiro. Momentos, imagens, recordações. A vida.
Para mim, a Rua dos Caldeireiros são os sábados de receber a semanada (5 escudos), dada pelo avô Eduardo, gerente da Tipografia Joaquim Oliveira, em frente da Senhora da Silva. Acima, estava a tabuleta da mulher nua (de folheta, era o que havia erótico, à mão de semear). Anunciava a casa das cintas e próteses, ao lado do Xavier (que vai resistindo, tal como a Central da Borracha, a Vidraria Fonseca, o Langarica, sapateiro portista e o Jayme da Silva, Armador).
Desde a minha infância a Rua dos Caldeireiros foi morrendo. E, com ela, as marcas guardadas na arca do tesouro chamada coração. Morte sentida foi a da “Estrela dos Caldeireiros”, tasco deslumbrante. A mais comovente foi a do aferroado portuense Coelho Maximino, que viveu os últimos anos rodeado de recordações, num 4.º andar com vista sobre a cidade. Feliz.
Jantei há dias com amigos na “Guesthouse” dos Caldeireiros. Um jovem casal, resistindo ao convite à emigração, comprou uma ruína do séc. XVIII, reconstruiu-a com novo projecto arquitectónico, instalou a casa de hóspedes e comedoiro e vai de vento em popa. Quem tinha razão era o Arq. Joaquim Massena, recuperador de edifícios na rua onde se instalou, acreditando no seu renascimento.
E tinham razão os visionários da SRU do Porto que, apesar dos sabotadores oficiais, fundamentalistas patrimoniais, inúteis conceptuais, derrotistas de serviço, doridos do cotovelo e vesgos políticos, acreditaram que a reabilitação do Burgo era possível. E que, apesar dos erros, valia a pena apostar nela como desígnio para a cidade. (E, se duvidam, falem com o jovem casal que vive nos Caldeireiros olhando a Vitória e o futuro.)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.