O erro de La Fontaine

Fomos enganados. Eu, a minha geração e os poetas pré, propriamente ditos, pós e ultra-românticos, desde Curvo Semedo a João de Deus. E até Albano Martins (que concentra tudo o atrás referido e mais o inconcentrável e inesperado da poesia), que escreveu 3 Hai-Kais dizendo: «1. Formiga: / minha irmã / e minha amiga. // 2. Formigas somos, creio. / Não: tenho a certeza. / Amealhamos pobreza. // 3. Como formigas cavamos / ao de leve / nossa história breve.»
Tudo aldrabice, inculcada pelas leituras do livro da Instrução Primária e o celebrado La Fontaine, que nos meteu na cabeça a patranha de que as formigas eram o paradigma de esforço e dedicação ao trabalho. Enquanto isso, a cigarra mandriava. E isto, em cidade trabalhadeira como o Porto (que se ufanava do ditado: «Braga reza, Coimbra estuda, o Porto trabalha e Lisboa gasta.»), servia de exemplo, apontado à juventude, de quem muito cuida de produzir e amealhar para os tempos difíceis, desprezando a cigarra cantadeira.
Tal condição acaba de ser posta em causa por cientistas de uma universidade qualquer (com tempo para futilidades) que, após porfiada investigação, concluíram que as formigas são madraças, trabalham pouco, desordenadamente e muito pior do que se imaginava. Tudo o que sobre isso aprendemos era mentira e, de uma penada, na esteira das posições do FMI e do relativismo que por aí campeia, mandaram La Fontaine, a fábula que inventou e os nossos mitos infantis para o caixote do lixo.
Não tinha, pois, razão o Bessa quando, na sua barbearia da Bainharia, afixou um dístico onde se lia: «Lembra-se daquela formiguinha que passava a vida inteira trabalhando? Teve um enfarte!» À luz desta nova teoria, enquanto improdutivas, as formigas não são competitivas. Que vão trabalhar e austeridade para cima delas!

©helderpacheco2015

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.