Promessas

O Duque, curador das Alminhas da Ponte, já me tinha falado disto. Que as promessas de velas de cera tinham aumentado e nas vésperas dos jogos grandes do FCP lá ia muita gente acendê-las. E a vitória do Porto sobre o Bayern, na Taça dos Campeões, fora obtida graças às Alminhas. Acreditei. No mundo moderno, David só vence Golias com armas secretas da fé artesanal.
Em época rendida à revolução tecnológica, aos anúncios da morte do jornal, do livro e da respiração boca-a-boca (substituídos pela realidade virtual), tais armas continuam a ser utilizadas. Uma amiga em cargo complicado confidenciou-me que, em vésperas de cerimónias, banquetes, inaugurações, leva duas dúzias de ovos à Santa Clara, para que tudo corra bem. Garante que dá resultado. E mais: que a clientela das promessas deve ser abundante, pois alguém da Igreja desabafou que não sabia o que havia de fazer a tantos ovos que lá apareciam.
Também me disseram que estão em alta as promessas à Santa Clara do Bonfim, pedindo a intercessão para cura das crianças tardeiras na fala. Nada disto me espanta, pois só os idiotas acreditam que a engenharia financeira, a ciência e a técnica, sozinhas, trarão a felicidade terreal ao homem, respondendo a todos os seus anseios e dificuldades. E tenho mais receio da ciência cega e da economia vesga do que dos ovos e velas das promessas – deles não vem nenhum mal ao mundo.
O meu receio é que, se isto se souber em Bruxelas, se o snr. Schäuble ou o tal Dijsselblaem, do Eurogrupo (Trabalhista não praticante), sonharem que os portugueses fazem promessas a santos e almas do outro mundo, ainda nos impõem um pacote de austeridade mais drástica para aprendermos que o dinheiro não é para gastar em futilidades. Em criancices indignas dos ideais europeus que, ultimamente, tão alto se elevaram.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.