Um cidadão fozeiro

A 24 de Agosto, o Porto popular, a gente fozeira e os lavradores dos arrabaldes festejavam S. Bartolomeu ruidosa, vinícola e gastronomicamente. Foz, Matosinhos e Leça eram praias escolhidas pelos romeiros para o banho-santo, dos 7 mergulhos, expurgando do corpo manhas e feitiços do diabo. E cantavam: «Esta viola é minha, / Este pandeiro é meu, / Este bandinho de moças / Vai pró S. Bartolomeu».
Um encanto deste país cristianíssimo é ser tendencialmente laico e assumidamente pagão. Como dizia minha devota tia Deolinda: «Deus é bom mas o Diabo também não é mau». Assim, não custa perceber que, por detrás do banho purificador no dia do Apóstolo, se esconde um culto das águas, sabiamente aceite pelo catolicismo que, tal como com o S. João, assobia para o lado.
Pelo que me contou um velho fozeiro, o S. Bartolomeu da Foz converteu-se em espectáculo de multidão, único e criativo, quando surgiram os cortejos de vestidos de papel, por iniciativa do notável cidadão Joaquim Picarote, apoiado pelo banheiro José Padeiro, da Praia do Ourigo. O cortejo firmou raízes e ganhou foros de enorme participação colectiva na sua realização. Com visão estratégica para assumir as tradições como mais-valias culturais, a Festa e o Cortejo de S. Bartolomeu (acrescidos do desaparecido concurso da “misse” do papel) poderiam transformar-se em instrumento de sedução da cidade «mais romântica» da Europa.
Por tudo isto, o bairrista João Manuel, insurgindo-se contra o esquecimento votado a Joaquim Picarote (admirável inventor de futuros), dedicou-lhe um poema, de que respigo duas quadras: «Picarote era modesto / Conhecido em toda a Foz! / Esta homenagem lhe presto / Ao erguer a minha voz. // O tempo não foi perdido / Serás luz na escuridão / Por mim não és esquecido / Não pertenço à ingratidão!»

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 31/10/2015.