Arca D´Água

Foi noticiada, para 2018, a abertura de um Museu no subsolo do Porto, na galeria do Rio da Vila, entre S. Bento e S. Domingos. 350 metros de atracção turística. E eu digo: «grande coisa!».

Porquê? Quem pensar o Porto e o aproveitamento dos seus recursos deveria olhar para outras realidades: em lugar de afunilar atractivos no centro tradicional – onde quase tudo se passa –, fomentar novas centralidades, criando pólos de atracção e ocupações para visitantes e portuenses. E esse pólo possível chama-se, em Paranhos, a Arca d’Água.

Um Alvará de 1597 concedeu à Câmara a água do Manancial ali existente, para abastecimento da cidade. Para isso, até 1607, seria construído o aqueduto subterrâneo que, juntando as águas de três nascentes, as conduzia desde a Arca d’Água até ao Anjo, numa extensão de 3 500 metros. Partes desta obra são galerias magníficas projectadas com precisão. Noutros locais, o túnel aberto na rocha viva mostra as marcas do esforço de operários anónimos que, no subsolo do Regado, Salgueiros e Cedofeita, abriram a braço o caminho para a melhor água do Porto até 1886.

Ao longo do séc. XX esta obra portentosa foi maltratada. A linha da Póvoa passou-lhe por cima, a Rua dos Bragas interceptou-a, o exército encheu-a de tralha. No Jardim da Arca d’Água, a entrada para o recinto da Arca Nova, de excelente arquitectura, faz-se por um alçapão terceiro-mundista. Pensar o Porto à altura dos desafios actuais era, em Paranhos, criar uma atracção museológica contando a história da água da cidade e atraindo turistas, pelo menos, num passeio subterrâneo até à Fonte do Regado. E, para os aventureiros, até à saída de Burgães. Descentralizando as seduções de uma urbe com tudo para descobrir e muito, escondido, para mostrar. À espera de gente que goste dela, da Ribeira ao Amial.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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