As nossas comidas

Diziam que o Norte era Minho, Douro Litoral, Trás-os-Montes e Alto Douro. E ainda não apareceu melhor. Em matéria de faca e garfo, era assim: bacalhau à Margarida, à Narcisa, à João do Buraco, à Túnel, à Zé do Pipo e à Gomes de Sá, lampreia (doce e sem ser), salmão ou sável, rojões, papas de sarrabulho, frigideiras, caldo verde, pescada à poveira, orelheira com feijão, tripas. Bifes à Padre Piedade, cabrito ou anho assados, alheiras, bola de Lamego, posta mirandesa, presunto assado, morcelas, lombo de porco assado, tortas de Chaves, iscas de bacalhau, bacalhau na brasa, trutas de Boticas, vitela assada e cozido à transmontana. E mais uns não sei quantos de bradar aos céus.

Quanto a adoçar o palato: formigos, rabanadas, pão-de-ló, pudim do Abade de Priscos, doces de chila, cavacas de Resende, queijadas de ovos, bolinhos de Jerimu, lérias, suspiros, melindres, morcelas e castanhas doces, torta doce, meias-luas, roscas, pastéis de Chaves e um manancial digno dos deuses.

Pois chegou-me à mão uma publicação editada pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal. Bem apresentada e melhor impressa, com excelentes fotografias e uns quantos temas apelativos. Chama-se “The Only Destination”, segundo a edição inglesa. Obviamente o Norte.

Fiquei de pé atrás com a capa, que do Porto tem degraus descoloridos da Casa da Música, onde se sentam dois jovens a fazer que lêem. Mas quase caí para o lado ao chegar às «Receitas e sabores que passam de geração para geração». E sabem qual o prato representativo, significante, identitário da nossa terra? Folhas de vegetal (alface?) e bagos de romã. A cozinha nortenha é, afinal, de fusão. É «comida de grilo».

Justificação? Talvez a mistura da ignorância com a obsessão de ser moderno a todo o custo. Já não tenho estômago para estas coisas.

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.