Celebrar as camélias

Por causa das ideias feitas sobre as camélias e da influência poética de Pedro Homem de Melo, meti água. Não que isso tenha importância em país onde todos a metem. Mas, por princípio, não é correcto.

Falando, portanto, de camélias, segundo o poeta «O perfume delas / É talvez a cor…», o que a minha pituitária urbana (logo, diminuída) associou a que as rosas japónicas não tinham cheiro. E andei a dizer isso até ao dia em que D. Isaura Allen, da bela quinta portuense onde nasceram das mais sofisticadas camélias deste mundo e do outro, me chamou para cheirar umas que lá havia.

Cheirei, envergonhei-me e subi aos céus. Vergonha, por ter mentido sobre o não odor daquelas flores, ir aos céus porque o perfume de algumas não é terreno. É subtil, discreto, inebriante de delicadeza, sugestivo e diferente. Suave e único. Se é possível um aroma ter cor, então o das camélias odorosas é como as brancas. Nelas, a Natureza atinge o primor e explica o facto de a loja mais selecta de chapéus de senhora, na Rua de Sto. António 211, se chamar justamente “Camélia Branca”.

Assim, a partir de os pós-românticos (terá sido Georges de Saint-Victor, em 1890), apelidarem o Porto de «Pátria das Camélias», pela quantidade de jardins e espécies aqui existentes, não poderíamos deixar de as celebrar. Até porque, desde que a vitoriana Kate Greenaway publicou, em 1884, a sua “Linguagem das Flores”, sabemos que duas camélias predominantes no Burgo – a vermelha e a branca -, significam «Excelência na simplicidade e beleza na perfeição.»

Nós, os portuenses, herdeiros da burguesia (ainda romântica) que construiu o progresso nas revoluções e gostava de camélias, que melhores propósitos exigíamos para a nossa «pátria pequena» (João de Araújo Correia dixit) que não fossem excelência e perfeição?

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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