Cólera e não choro

Um leitor escreveu-me dizendo: «A Rua de 31 de Janeiro, que toda a gente considerava a mais bonita do país, está sem lojas e moradores. Merece um escrito na sua crónica habitual.» E cá estou interagindo com ele na minha rede social.

Para quem conheceu a Baixa dos anos 50 a 80, passar em certas ruas é ficar esfrangalhado com o que vê. Abandono, decadência, despovoamento são mazelas de uma cidade que se deixou adormecer e assinou a certidão de óbito ao decidir que o Centro seria para o terciário. Viu-se o efeito: locais outrora estuantes de dinamismo são agora sítios fantasmas.

31 de Janeiro era a supra-sumo. Fazia parte do itinerário obrigatório da Baixa, com descida pelo passeio da direita, oferecendo a paisagem deslumbrante sobre os Clérigos e a Torre, recortando-se no crepúsculo. Nesta rua carregada de significado político, existiram verdadeiras instituições: Tabacaria Africana, Livraria Portugália (centro de modernidade), Emílio de Azevedo Campos (santuário da precisão), Costa Braga (chapeleiro desde 1866), Farmácia Lencart, Ourivesaria Reis, Luvaria Bonifácio, Luvaria Vicent (a fachada não tinha equivalente), Papéis Pintados da Foz, Casa Moreira de Sá, “Au Printemps” (fundada por Mme Berthe Conseil), Electrónica Ldª, Livraria Internacional, Sapataria Lages. E por aí fora (tenho de parar, se não abafo).

Por isto e outras coisas imponderáveis, quando passo em 31 de Janeiro não sinto pena. Sinto cólera pela Inacção de gestões municipais que – com a maior insensibilidade e alheamento –, aceitando a inevitabilidade cancerosa do efeito donut, deixaram cair a Baixa do Porto no estado agónico a que chegou. E aplaudirei todos quantos fizerem da Reabilitação urbana, social e comercial do Burgo desígnio e desafio para os portuenses dignos da cidade que herdaram.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.