É Natal? (1805)

Embora no Burgo os multiculturalistas estejam ainda limitados pela quantidade, o multiculturalismo tomou conta da cidade. Não por convicção mas, simples e provincianamente, porque sim. É moda e convém copiar a estranja, para não ser parolo.

Todavia, em ambiente minhoto-duriense, o nosso multiculturalismo é especial. Não usa véu, nem anda de burka ou tolera mesquitas que pregam a morte dos infiéis. Antes de ser islâmico, é anglo-saxónico. Importa o que vem das europas nórdicas ou das américas. Mas em 2.ª mão, pois se, nos tempos de Eça, a civilização nos chegava pelo paquete, agora vem pela internet e basta decalcá-la. Como aqui se importa tudo: leis, ideias, filosofias, já importamos o dia dos namorados, dos avós e mais disto e daquilo. O Halloween é instituição nacional e as festazitas de povo atrasado vão para o caixote do lixo.

Também o Natal se transforma, ano a ano, em manifestação multicultural. Consoada é coisa ultrapassada. A Bacalhoada anti-ecológica, por exterminar os cardumes do gadídeo. Rabanadas, doces de chila e de bolina são cozinha azeiteira geradora de colesterol. Roupa velha é de tesos. Etc. E sobretudo o Presépio . O Presépio é ofensivo da democracia multicultural em que vivemos. É intolerante, porque exalta a candura e a espiritualidade de um povo que brincava na cascata onde, para muitos, nascera a Esperança e a Redenção. O Presépio foi varrido do mapa da cidade. Consumo, sim. Incentivos aos ideais consumidores, óptimo. Multiculturalmente falando, o Porto está cada vez mais cosmopolita. Consoa comida de fusão e fala inglês. Toca o Jingle Bells nas ruas e transforma o Natal em campanha de vendas.

Há anos o insubstituível Manuel António Pina, agnóstico e culto, perguntava: «Quem tem medo do Presépio?» Como não perceberam a ironia, ficou sem resposta.

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.