Escuridões

Hoje abordarei assunto provinciano. Sem substância. Como a falta de água num fontanário, os buracos no pavimento do bairro, os canteiros pisados no jardim. Ou coisas tais. Mas, como dizia Alexandre Herculano: «Nem todos podemos ser filósofos» e a minha camioneta não dá para mais. Contento-me, pois, com trivialidades.

Trivialidades que implicam sobre o viver e a boniteza da cidade. Influem sobre o modo como é vista. Adoçam-na, tornando-a atraente, ou amachucam-na, revelando-lhe as mazelas. Ou, se calhar, vícios ancestrais e defeitos de carácter chamados incúria, assobiar para o lado, insensibilidade, desinteresse, abulia (técnica e cívica), olhar vesgo sobre a urbe. E porventura balda.

Diziam os antigos que o Porto era tristonho, escuro, penumbroso. A minha maior amiga – que não é de cá -, conta que, quando desembarcou pela primeira vez em S. Bento, se assustou ao ver a escuridão das ruas. Teve vontade de ir embora, mas depois adaptou-se ao granito e aos nevoeiros. Para isso, não podendo mudar a geografia, podemos, ao menos, iluminar a cidade. E sobretudo iluminar o que a distingue e valoriza.

Passei há dias na marginal junto da Ponte Maria Pia. Jóia deslumbrante, obra-prima de Seyrig, património da engenharia mundial, referência da técnica e do engenho humano. Única e irrepetível, perde-se na escuridão da noite. Nem vela, candeeiro a petróleo, pilha, quanto mais focos a mostrar o seu deslumbramento. E passei na Praça. Em cidade que se ufana de ser Invicta e liberal, o Herói do seu destemor e orgulho dissolve-se no negrume das noites. Às escuras. E mais equivalentes noutros sítios que não cabem aqui.

Não há por aí quem acuda ao desmazelo? Terminando a crónica com uma palavra estúpida: é esta a competitividade que queremos para projectar internacionalmente o Porto?

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.