Este bom clima

Havia um costume no Porto chamado «andar às vozes», na busca de um presságio sobre o futuro. Consistia em ir pela rua, até à capela de N.ª S.ª das Verdades, atento ao que os outros diziam e, conforme as palavras ouvidas, tirar o vaticínio sobre a sorte que o esperava. Superstições de quem não tinha internet ou comentadores da T.V.

Também eu ando às vozes. Não para retirar augúrios do que escuto, mas para compreender a gente que se senta ao nosso lado nos autocarros. Estas são, portanto, vozes ouvidas no 500, entre o Ouro e a Praça. Envolviam as contas da electricidade e quanto custavam a pagar. O diagnóstico geral era a carestia das ditas e as poupanças no consumo: andar às escuras pela casa (em riscos de partir a tola – dizia um), substituir lâmpadas «por luz mais baixa» (as L.E.D. são caras como o caraças – dizia outro), não cozinhar no fogão eléctrico (já uso fogareiro – disseram vários), desligar o mais possível (qualquer dia nem vejo televisão – segundo alguns). Expedientes!

Ao chegar ao Infante, todos estavam de acordo na despesa inútil com o aquecimento. Rapar frio, bater o dente, usar cobertores dentro de casa (já nem sei o que é um quarto aquecido – disse a madama, com cara de classe média, que entrou na conversa). Madama é termo apropriado à definição da jovem deputada prafrentex que considera «ricos» acima de 10 000 euros anuais! E que mantenham a Contribuição Extraordinária para cobrir os delírios dos assaltantes de colarinho branco. Os ricos que andam no 500 paguem, então, a crise desta Democracia de impunidade e discursos. Ainda abri a boca para, sobre o frio, entrar na conversa e dizer que nos vai valendo o aquecimento global. Com o Porto, em Dezembro, a 16 e 18 graus, não precisamos de aquecedores. Rejubilemos, pois, com as mudanças climáticas.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.