Fall in Oporto

Escreveu Inês Lourenço (na sua fidelidade ao Porto): «Como dois míticos amantes / o Outono e a Cidade enfrentam-se / no esplendor das primeiras manhãs (…)»

Se eu tivesse o poder demiúrgico para governar o quotidiano, fazia do Burgo a cidade do Outono. E, internacionalmente, tentava convencer a estranja (que, a estas horas, rapa frio e grama dias cinzentos de noite a noite) a vir cá passar a época a que dantes chamavam «o cair da folha» (a que os americanos chamam «fall»). Para ser altamente cosmopolita – como convém –, inventei um trocadilho com a palavra: «Fall in Oporto with love», que tanto podia ler-se como «Cai no Porto com amor», ou «Outono no Porto com amor». E os românticos vinham por aí abaixo nos «low-coast» às catadupas.

O Porto, no Outono, pertence a outro mundo. As neblinas são ténues. As tardes morrem em crepúsculos irresistíveis. As noites acontecem sem darmos por elas. A Foz Velha e o seu Passeio Alegre tornam-se irrealidade. O Atlântico, em certas horas, parece um lago carmim. As ruas surgem tranquilas e o trânsito flui mais devagar. Miragaia é um cenário de filme romântico. Os cafés (com a magnífica descoberta – nova tentação e usufruto tripeiros – que são as esplanadas) convidam ainda mais à arte suprema da futilidade. Os (que nós, por cá, impropriamente dizemos) castanheiros esfumam nas esquinas, enchendo os espaços dos odores mais outonais de quantos há. E a Baixa, antecipando as iluminações, começa a sugerir a fantasia que vai chegar com o Natal.

O rio tinge-se de púrpura e o nosso coração fica preso no fascínio, sempre renovado, por esta inexplicável nostalgia do já visto nos outonos portuenses acumulados desde a infância, «destinados» (como também escreveu a Inês): «à intransitiva beleza do malogro / ao triunfo matricial da sombra.»

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.