Memória da indústria

Outro galo cantaria ao Porto se tivesse feito a Revolução Industrial. A estas horas estaria rindo para o Terreiro do Paço. Não fez, não aconteceu e a História passa. Mas no seu território instalaram-se muitas dezenas de unidades, da pequena à grande indústria. Algumas freguesias tornaram-se centros fabris e a população duplicou e triplicou. A partir daí surgiram bairros, ilhas e a tradição associativa operária.

Em 1849, seria fundada a Associação Industrial Portuense, em 1861 realizava-se a I Exposição Industrial e, em 1866, no Palácio de Cristal, seria inaugurado o Museu Industrial do Porto. O Burgo transformava-se numa cidade marcada pela indústria, que se manteve até meados do séc. XX. Afectado pelo fenómeno global da desindustrialização, o Porto passou por um período de crise e transição, que só agora começa a ser ultrapassado.

Desaparecidas as fábricas, as cidades ex-industriais que se prezam salvaguardaram memórias, documentos e máquinas da sua tradição fabril. (O Beamish Open Air Museum, em Durham, conserva uma mina de carvão, linhas de C.º Ferro e de eléctricos, um bairro operário, maquinaria, arquivos industriais, etc.). Para mal dos nossos pecados, a Invicta renegou tal herança. Perdeu edifícios, arrasou comunidades operárias, deixou destruir arquivos e documentos sobre esta parte do seu corpo físico e social. E esqueceu duas vezes o Museu Industrial, o antigo e o recente, que antes de ser já não era.

Dizem que o antigo Matadouro da Corujeira vai acolher o Museu da Indústria portuense. O edifício, de 1923, é ele próprio um monumento e, a concretizar-se a ideia, seria duplo milagre: reabilitá-lo e acrescentar ao Porto a dignidade de celebrar o património de actividades que também forjaram a sua identidade. Mas sou como S. Tomé: acredito quando vir.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.