O tempo das músicas

Renée Fleming, loira inteligente, de voz sublime, no intervalo da actividade operática canta canções ligeiras. Numa delas interroga «Quem sabe para onde o tempo vai», pergunta colocada à nossa imaginação.

Usufrutuários do tempo, temos para com ele a vantagem da memória selectiva que esquece os momentos maus e retém os do contentamento. E, se não sabemos para onde ele vai, temos a certeza de onde vem. E o que nos trouxe. Excepto um amigo meu que, abespinhado, me censurou por ter dito que no tempo do século passado, o Porto estava na rota das grandes estrelas musicais. (E agora não? perguntou.)

Parece que disse uma heresia. Com o turismo, o Erasmus e a internacionalização do Burgo, pensam que se descobriu a abertura ao mundo, às outras culturas, etc. O discurso habitual. De maneira que, para lhe responder, recordei o que vi entre 1980 e 2000, além do Frank Sinatra (que deu origem ao meu escrito), encontrei o seguinte. Falando de génios: Gary Burton (vibrafonista), no Carlos Alberto; Astor Piazzolla (Rivoli); Stephan Grappelli (violinista); Richard Galliano (acordeonista); Michel Petrucciani (pianista), no S. João; Tony Bennett (Europarque); Pat Matheney (guitarrista) e Toots Thielmans (gaita de beiços) Coliseu; Winton Marsallis (trompetista), já não sei onde. No Coliseu, foi um ver se te avias: Van Morrison, Milton Nascimento, Ivan Lins, Bethânia, Caetano Veloso, Djavan, Simone e outros. E, apesar de acharem parolo, até Roberto Carlos, nas Antas.

Falando de imaginação, bem gostaria que o tempo nos trouxesse categoria para não termos de ir à Capital do Império ou a Compostela procurá-la. Porque, musicalmente, apesar dos dois milhões de turistas, algo está muito em desacordo com a tradição da cidade. O tempo vai indo muito por baixo e a crise não explica tudo.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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