Outras audácias

O problema das cidades com mater em pedra granítica é terem de se construir à marretada. A pulso, picão, cinzel e dinamite. Sangue, suor e muita canseira. Foi o caso do Porto, que tem andado, há séculos, a desbastar pedraria.

A primeira terá sido a Arrábida, maciço que lhe estorvava o avanço para a Foz. Ficou à vista. Depois de milhares de toneladas dela retiradas, ainda mostra as entranhas do mundo. Do Monte Pedral saíram milhões de metros cúbicos de granito para as obras do Burgo – até a Torre dos Clérigos. Dele apenas resta a toponímia.

Em cidade cuja orografia balança entre morros e depressões, abrir ruas demonstrou grande engenho. E custou caro. Para romper a Restauração, foi necessário – em saga oitocentista – devorar um terço da pedreira da Torre da Marca. Ficou ao léu e, até hoje, a desprender restos da colina. Faz parte da paisagem.

Construir Gonçalo Cristóvão deu outro formidável muro de pedra cortada a eito. Lá permaneceu, assustador, desde 1894, até ser tapado, um século depois, pelo enorme imóvel construído. Uma das últimas pedreiras que o Porto viu foi a da Trindade. Ao léu se manteve desde a demolição da Rua de Cima do Muro. Habituados à indiferença, ficou em exposição até ao séc. XXI. Finalmente foi coberta por um biombo imobiliário. Não está mal.

Há, no entanto, uma pedreira maldita a que a cidade se acostumou. Devia sentir-se ofendida, revoltada, ultrajada, mas quem gosta de pedregais e patologias terceiro-mundistas cala-se. Eu não. Considero a Avenida da Ponte um crime sem absolvição. E deixá-la como está um atentado à qualidade do ambiente e do espírito portuense. E disfarçá-la com instalações estéticas é usar silicone para curar uma ferida. No rosto de um Porto à espera da redenção. À espera de novos tempos. De novos tempos e outras audácias.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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