Outro aniversário

Sempre à conquista do velo de oiro da cidade solidária, popular, pitoresca e convivial, o intrépido marinheiro da nau Argo chamada Porto continua a surpreender-nos. Com o nome de guerra (e de baptismo) de João Manuel, é o aniversariante a quem dedico esta crónica.

Fundador da inesquecível “Voz dos Ridículos” que, por se meter com os do lápiz azul, incomodou a inefável instituição chamada Censura, continua bairrista sem vacilações e tripeiro sem complexos. Ninguém o pára na versejadura – amável, crítica, ou desencantada – do quotidiano da Invicta (e do resto). E ninguém o aparta da ironia. Do riso e do gozo com a mediocridade alcandorada a vedeta, passou agora a sério e, comemorando as suas 95 de espanto e muito risonhas primaveras, brindou-nos com uma «selfie» (isto é que é actualidade!) literária interrogando-se sobre o sentido do seu viver. Eis um recado magnífico: «Ao tempo pedi um dia / Que me desse muita idade / E para minha alegria / O Tempo fez-me a vontade! (…) Encontrei-me com a Saudade / Que veio ao encontro de mim / E ao olhar para a minha idade / A Saudade disse assim :O teu Tempo já passou / Tens direito a descansar / Amaste quem te amou / Que não pode regressar! / E então fiquei pensando / No que já foi percorrido / Tanto Tempo caminhando / Em terreno tão comprido! / E à Vida fui perguntar / Porque tanta Vida me deu / Valeu o meu caminhar? / E a Vida me disse: Valeu.»

O incomparável Jorge Luís Borges disse que «Somos o Tempo» e o argonauta dos espaços portuenses João Manuel comprova-o em absoluto. Dono do tempo, pedala a grande velocidade, poetando, a caminho do século. Esperemos por isso. (Já vou começando a indagar com qual Vinho do Porto – 30, 40, 50 anos? – iremos brindar. Nem mais, já que, como também escreveu o clássico: «O tempo voa»).

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.