Poemas Lusitanos

Nos seus “Poemas Lusitanos” (1598), António Ferreira escreveu «Floreça, fale, cante, ouça-se, e viva / A Portuguesa língua (…)». Convenhamos: com a bambochata do Acordo e a mistura de «fatos», «atos» e coisas tais, difícil se torna manter o nosso idioma – como também defendia o clássico – «soberbo e altivo».

A desfeá-lo ainda mais, andam por aí alguns engulhos normalmente com origem na capital do despautério (perdoe o Mestre este galicismo). Ou seja, o Terreiro do Paço, de onde advêm mazelas e Acordos, ensombrando o falar da gente. E passo a expor: no Porto, desde catraio, na Vitória, sempre ouvi traduzir «sandwich» por sande. Com o plural sandes. Português firme, como a gramática manda. Pois a inteligência capitalina que controla a legendagem fílmica (e outros escritos) desatou a bolsar «a sandes» e a asneirada está a pegar de estaca entre os recuados.

Outro, vindo das mesmas bandas: a palavra «sério», enquanto substantivo, é masculina e dá «a sério», «dar-se ao sério», «pôr-se sério», «do seu sério», «tomar a sério», «falar sério» e outras fórmulas. Nunca, jamais, em tempo algum ouvi dizer no Burgo, em português impoluto, sem ser assim. Pois na capital do Império inventaram o «à séria» que, reproduzido pelas cadeias do pensamento único, está a conquistar adeptos entre os tais recuados.

E, finalmente (mas já nada tem a ver com a Capital – o desmazelo é urbi et orbi) -, sabemos que a conjugação do verbo «intervir» é traiçoeira. Escorregadia. Pérfida. Dá embaraços linguísticos a torto e a direito. Daí, quem fala ter de se munir de sensores especiais (fáceis, basta conjugá-lo como «vir» e não como «ver»), para não ficar mal visto. Por tal razão, não fica bem a Ministros da República, respeitáveis e respeitados, dizer «interviu». Acho eu. E por aqui me fico.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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