Porto incompleto

Desde que, em 1763, a Junta das Obras Públicas almadina lançou os fundamentos da Nova Cidade, o Porto assumiria a concepção de uma urbe moderna e fora de portas. Ultrapassando a muralha que o asfixiava, construiria novos arruamentos, expandindo-se para novos bairros. Avançando para Norte e Ocidente, conquistaria quintas e campos de Stº. Ildefonso, Cedofeita e Massarelos. E por aí fora, no séc. XIX, até ao mar.

A expansão culminaria com a urbanização da Foz, que, com a descoberta dos lazeres estivais, se transformaria em lugar dentro e à margem da cidade. Deslumbrativo, excelente, invejável. E o Porto, esquecendo que, com a Foz (1836), integrou Campanhã, passaria a apetecer o Bairro Ocidental em detrimento do «outro» lado, interior e diferente. E nem a anexação de Paranhos (1837) e a criação do Bonfim (1842) o fez mudar de (pre)conceito, que a industrialização veio enraizar. Para muitos portuenses e Câmaras que governaram a cidade, o Porto Oriental é menos importante do que o Ocidental.

A elevação do Centro Histórico a Património Mundial agudizou o preconceito. Só há olhos para ele. A prova disso é o aparecimento na internet de um documentário sobre a Invicta, filmado por um drone, o melhor do género realizado até hoje. Infelizmente a perspectiva demonstrada não corresponde à qualidade das imagens. É Ribeiras, Sé e zona histórica até à saciedade. Quando voou sobre a Boavista, desceu à Foz, mostrou a frente atlântica e o Parque, ainda exultei. Foi sol de pouca dura: regressou às Ribeiras e aí ficou.

A montante da Ponte Luís I, do Bonfim, Vale de Campanhã, Dragão, Antas e Paranhos, nada existe. Assim, ou retira o filme, refunde-o e mostra a cidade a sério, ou mais valia estar quieto. Amar o Porto é do Esteiro de Campanhã à «She Changes» (a que chamam anémona).

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.