Sejamos justos

A ânsia de progresso leva-nos a sermos injustos connosco próprios. Atribuindo o que o povo suporta a culpa sua e omitindo os desatinos dos governantes ignoramos que boas orquestras incluem excelentes condutores. Acho que muito temos feito apesar da periferia da Europa, da barreira da Espanha, dos atrasos ancestrais no conhecimento. Apesar de séculos de Inquisição, da ofensiva miguelista contra a inteligência, de desvarios liberais e republicanos, de 50 anos de censura e polícia política, avançamos sempre. E atingimos patamares de qualidade que só a insanidade política pode fazer retroceder.

E esquecemo-nos que no momento propício à nossa mudança, vieram os franceses e atrasaram tudo. Para o Porto foram uma calamidade que fez regredir a cidade material e humanamente. Só para que conste: da freguesia de Lordelo descobri agora um Memorandum do respectivo abade, de 29.3.1809, dizendo: «pelas nove horas da manhã, neste dia, infelizmente entrou uma coluna do exército francês (…), matando todas as pessoas que encontraram e não somente dentro de suas casas, mas também fora delas, saqueando-as e roubando-as ao mesmo tempo, e fazendo todo o género de hostilidades, e mandando eu proceder na averiguação das pessoas que morrerão (…) que todas foram sepultadas pelos campos e caminhos desta minha freguesia por ordem do governo francês (…)

O documento contém os nomes dos executados em cada lugar. Apenas números: Igreja 7; Raba (Arrábida) 11; Barreiros 3; Coutos 2; Padrão 6; Pinheiro 9; Mazorra 13; Grijó 2; Monte da Carreira 8; Serralves 10; Lordelo 6; Mouteira 3; Azenhas 7; Rata 1; Granja 1; Ouro e Stª. Catarina 11. Se numa freguesia rural e piscatória houve 101 assassinatos, podemos fazer ideia do acontecido em outros lugares do Burgo e perceber o que se passou país fora.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

 
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