Somos existencialistas

No arquivo do JN existe uma fotografia, de 1966, com a legenda: «Existencialistas estrangeiros nas ruas da cidade». Os assim nomeados eram  turistas, em jeito descontraído, de vestuário moderno. Avis raras na cidade. Apesar da nossa adesão à EFTA, que arejou o ambiente, continuávamos à margem das modernidades. Numa ilha rodeada de Espanha por todos os lados menos pelo Atlântico que nos ia valendo a internacionalização.

Embora o existencialismo seja uma doutrina filosófica, a designação significava, entre nós, classificar quem era diferente, desempoeirado e não de acordo com as normas que regiam o habitual. E o habitual era conservador, bota de elástico, provinciano e tendencialmente beato e quem não se adaptasse à formatação era «existencialista». Nos meus tempos de Coimbra, quem não usava capa e batina, rejeitava a praxe e – cúmulo da heterodoxia! – frequentava determinada confeitaria era assim apelidada (e coisas piores).

Muitas coisas mudaram desde então. Hoje, no horizonte portuense, com a cidade transformada em babel de raças, culturas e falares, o diferente instalou-se e, com a mudança de hábitos, costumes e, logo, mentalidades, todos nos tornámos «existencialistas». À força, e talvez a contragosto, adaptámo-nos à inovação. O falar à moda do Porto vai-se misturando no linguajar cosmopolita que inunda a cidade.

Se querem que lhes diga, prefiro assim. Prefiro viver esta época de ajuste de contas do Porto com a sua decadência, ruína e abandono – que quase o levaram à implosão social e urbanística. Prefiro assistir ao esforço do Burgo para superar as suas contradições e reencontrar a sua grandeza do que contemplar uma cidade a caminho da perdição. Prefiro os riscos da mudança à estabilidade de uma cidade que se ia convertendo em arrabalde de si própria.

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.