Sonho de construir a “torre da cidade” é antigo

Dois novos livros, de Hélder Pacheco e Germano Silva, trazem revelações sobre a história da Torre dos Clérigos, que celebra 250 anos de existência.
Hélder Pacheco já escreveu dezenas de livros sobre a história do Porto. Poderia a escrita de um livro sobre a Torre dos Clérigos, o monumento mais conhecido da cidade, surpreender o historiador? Sim. Ao inves$gar nos arquivos, descobriu que, desde 1731, 32 anos antes da
conclusão da obra de Nicolau Nasoni, havia a intenção de construir “a torre da cidade”.
“Abro a boca de espanto e fico entusiasmado porque é a consagração da ideia de que, desde o início, havia a ideia de construir uma torre. Mais: a que se chama ‘torre da cidade’. À maneira italiana, a cidade preparava-se para construir uma grande torre que se impunha – a paisagem do Porto é completamente diferente antes e depois da torre”, diz Hélder Pacheco à Renascença. É uma das revelações do livro “Porto: A Torre da Cidade” (uma encomenda da Irmandade dos Clérigos a Pacheco, com chancela da Afrontamento – edição agendada para Junho). Dois novos livros (o de Hélder Pacheco e um de Germano Silva, “Os Clérigos”, que a Irmandade dos Clérigos vai editar em Maio) confirmam a histórica rica de um monumento, a celebrar 250 anos de existência, e revelam alguns dados novos.
A ideia anterior era que “faltaria um plano de conjunto” para os Clérigos, reforça Pacheco. Mas um documento de 1731 (um auto da entrega do terreno da Câmara do Porto à Irmandade para a construção da actual Igreja dos Clérigos), encontrado durante a investigação do historiador, indica que já nessa altura havia o plano de construir também uma “torre da cidade”.

Multifunções
A torre, que está a ser reabilitada, tornar-se-ia verdadeiramente a “torre da cidade”. Em
diferentes momentos, assinalava o meio-dia com um canhão; mostrava as horas; dava o sinal de que estava a chegar ao Douro o dinheiro da Mala Real Inglesa (uma vez por mês); funcionava como uma espécie de jornal, emissor de avisos ao povo do Porto: “nasceu o príncipe”, “nasceu a princesa”, “morreu o rei”, “vem aí o bispo”.
O conjunto dos Clérigos (torre, igreja e enfermaria) tornou-se tão indissociável da cidade que sorrimos perante a história relatada por Germano Silva: “Quando a igreja começou a ser construída, o abade de Santo Ildefonso não gostou. ‘Mais uma igreja? Já tem aqui esta’. E tentou que o mestre pedreiro retardasse as obras. A Irmandade teve que mandar embora o pedreiro e contratar outro.”
“Há uma ligação muito estreita da torre com a cidade”, diz Germano Silva, cujo livro será um guia a pensar nos milhares de turistas que visitam os Clérigos todos os anos.
Do alto dos seus 75 metros, a torre que Nasoni desenhou servia de aviso para os navegadores.
“Os navios orientavam-se por ela para se dirigirem à barra do Douro”, exemplifica o jornalista do “Jornal de NoIcias”.
Em meados do século XIX, “numa época em que o relógio era quase um objecto de luxo”, conta Germano Silva, a torre era usada para sinalizar o meio-dia (o Sol incidia sobre uma leite e queimava um fio, o que fazia disparar um canhão).
“A Irmandade colabora na meridiana [o nome dado a este sistema] gratuitamente. É uma dádiva à cidade”, diz, por seu lado, Hélder Pacheco. Mas a engenhoca não é perfeita: “os $ros de canhão dados diariamente ao longo de dezenas de anos começaram a abalar a estrutura da torre e há queixas da vizinhança, da Rua da Assunção, de que abalavam também os telhados.”
“Contas à moda do Porto”
No final do século XIX, “a Irmandade decide adquirir um relógio de categoria” (em 1833, em
plena Guerra Civil, D. Pedro manda instalar um relógio vindo do Convento dos Lóios, mas
funciona mal). Fornecedores de todo o país respondem ao concurso público.
A Irmandade “não tem dinheiro” e, por isso, “faz uma pe$ção pública” para custear a compra do relógio. “Centenas de pessoas, de todas as categorias”, ajudam a comprar um “Hércules”, “o melhor relógio da época”. A cidade, que se resumia ao actual centro histórico e a partes da baixa, “acertava as horas pelo relógio”, conta Pacheco.
O historiador obteve estas e outras informações vasculhando nas edições do jornal “O Comércio do Porto” (desde a fundação, em 1854), no arquivo municipal e no cartório da Irmandade dos Clérigos. Beneficiou do rigor contabilís$co da Irmandade – os registos revelam “contas à moda do Porto”, diz, a sorrir.
“Todos os gastos da Irmandade estão rigorosamente anotados, o que nos permite reconstruir aquilo que a torre necessitava para ser man$da. Os sinos são uma das despesas obrigatórias permanentes – deviam ter tanto impacto na vida da cidade…”, reflecte Pacheco. Eles tocam logo a 2 de Abril de 1763, o que confirma que “a torre está pronta” nesta altura.
Os aselhas miguelistas
Outra despesa recorrente: centenas de luminárias. “[Para assinalar] Tudo o que são festas e
lutos, a torre é iluminada”, diz Pacheco.
Esse hábito quase ia dando uma ajuda aos miguelistas para destruírem a Torre dos Clérigos
durante o Cerco do Porto (1832-1833). Estacionados em Gaia, disparavam con$nuamento sobre o Porto.
Numa noite, para comemorar o aniversário de D. Pedro, os liberais do Porto “decidem iluminar a torre”. Com um alvo tão bem delineado, a ar$lharia miguelista tenta a sua sorte. “Por ser muito aselha ou incompetente, ou por outra razão que se desconhece, embora tenha feito pontaria para a torre, nunca conseguiu acertar nela”, afirma o autor de “Porto: A Torre da Cidade”.
A torre sobreviveu incólume e, no início do século XX, torna-se numa atracção pública, palco de eventos como a subida dos alpinistas, em 1917, para promover uma marca de bolachas (150 mil pessoas assis$ram à proeza).
Só no século XX se torna corrente subir à torre – no século XIX, tal só acontecia a 15 de Agosto, dia de Assunção de Nossa Senhora. “O público era tanto que era preciso chamar a guarda municipal para regular a afluência de público.”

in RR Rádio Renascença Online – Editado por Pedro Rios – Inserido em 18-04-2013

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.