Uma purificação

Terá sido Eça de Queiroz quem escreveu que isto não era um país, mas um sítio mal frequentado. Em relação ao tempo dele, em melhorias materiais, sociais, educativas e científicas não há comparação possível: demos um salto abissal. Basta conhecer a História. Já no capítulo da má frequência – como se diz na Vitória, minha terra de coração ao pé da boca –, aí é que a porca torce o rabo.

Porque, olhando a quantidade de ladrões, oportunistas e corruptos por metro quadrado aqui implantados, se calhar até regredimos. E o país, vendo os aproveitadores de uma democracia que abandonou a ética, começa a duvidar de si próprio.

De qualquer modo, o pior do pior é o descrédito da dignidade e a indiferença perante a categoria. Por tais razões, apresso-me a fazer um elogio. Entusiástico. A resposta à dúvida sobre se Portugal existe encontra-se na Exposição Habitar Portugal 12.14 patente, até 25 de Abril, na Galeria do Palácio (num incómodo 2.º andar). Partindo do tema “Está a Arquitectura sob resgate?”, a mostra apresenta 80 obras marcantes dos últimos trinta anos de produção arquitectónica, com destaque para o Porto e sua Área Metropolitana.

E compreendemos que, apesar da incompetência que nos degrada, da «austeridade, desemprego, emigração, diminuição do poder de compra, crise do imobiliário», o espírito criador dos portugueses não esmoreceu. Está vivo. E que, apesar de tudo quanto se conjuga contra ele, o país responde. Com dignidade e categoria. Coragem e afirmação, rigor e imaginação. Com uma modernidade à altura das nossas raízes. Dos nossos sonhos.

Esta exposição é, por isso, uma limpeza por dentro, libertadora do sarro que nos tolhe. É uma purificação. O reencontro com um certo país de que só poderemos sentir orgulho. A diferença entre o lixo e o que ainda vale a pena.

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.