Verbos de antigamente

Nos tempos homéricos da minha infância na Rua do Correio janelava-se. Janelava toda a gente do lado em que morava (do outro só havia escritórios), conjugando o verbo janelar, que significava «passar a vida à janela» – o que não era bem o caso. A  vizinhança era, portanto, janeleira (o que também designava quem gosta de estar à janela). E conversadeira. Janelava-se, pois, para ver quem passava na rua e conversar com quem estava nas janelas próximas. Janelar queria dizer «estar com», além de menar o que sucedia num raio de muitos metros em redor. E saber notícias, novidades, escândalos, boatos e segredos (daqueles que só se dizem a uma pessoa de cada vez).

E, se a casa o permitisse, varandava-se, para realizar os mesmos rituais do estar à janela mas mais amplos e de corpo inteiro. Varandar, sobretudo nos verões abafadiços da Baixa, era a oportunidade do arejamento e do ritual diário de regar as plantas dos vasos. E a cidade ficava assim aconchegada, caseira, metediça, um tanto má-língua e terra-a-terra, mas – céus! – humana até ao tutano. E simples.

O mundo moderno, que tem, sobre os tempos homéricos, a vantagem de nos fazer viver muito mais, matou aqueles verbos e o que eles encarnavam. Hoje ninguém quer janelar ou varandar. Primeiro, porque é provinciano e, segundo, porque a realidade, a paisagem e os outros são para mirar virtualmente no smartphone. Eu próprio me alienei, pois, para não andar em apertos e não havendo já a varanda do Snr. Quirino na Ribeira, habituei-me a ver o fogo de S. João pela T.V.

Mas, ao menos, usufruo da minha varanda, onde – como não gosto de praia – apanho sol e me enfarto de azul, com a vantagem de não ter nortada nem areia! Mas não há com quem falar, a não ser pombas e gaivotas. E essas, por enquanto, para conviver não servem.

©helderpacheco 2015

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~ por Helder Pacheco em 17/04/2016.

Uma resposta to “Verbos de antigamente”

  1. […] Nos tempos homéricos da minha infância na Rua do Correio janelava-se. Janelava toda a gente do lado em que morava (do outro só havia escritórios), conjugando o verbo janelar, que significava «passar a vida à janela» – o que não era bem o caso. → […]

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