À sombra de uma árvore

Manuel António Pina e eu tínhamos em comum a admiração que votávamos a um jornal feito por crianças deficientes, chamado “O Fala Barato”, e o apreço por gatos. A eles, desde os tempos de catraio, na Rua do Correio, devoto enorme estima. Aliás, a Mãe Natureza foi injusta para com tais felídeos, que mereciam muito mais falar do que certos humanos. Era o caso dos três gatos protegidos do prédio em que habito, que tinham solicitado asilo alimentar à vizinhança.

E obtiveram-no de uma senhora que, às 8 da manhã, 12 e 7 da tarde lhes servia as refeições. À diligência respondiam os bichanos com pontualidade britânica e, minutos antes das horas aprazadas, compareciam debaixo das escadas, que faziam de sala de jantar. Possuíam relógios ou estômagos que funcionavam como tal. Para dormir, os três da vida airada utilizavam uma moradia desabitada, onde encontraram aposentadoria.

Esta paz social foi brutalmente interrompida. O gato pardo não resistiu ao ataque de dois canídeos que o dono – cidadão consciente dos deveres cívicos – solta para praticarem o desporto de matar gatos. O gato preto foi atropelado por um psicopata, que, se andasse a 50 km, teria tempo de travar. (Os gatos pretos trazem-me à lembrança o livro admirável de Erico Veríssimo – agora desprezado pelo jet-set intelectual – “Gato Preto em Campo de Neve”, metáfora sobre uma viagem aos E.U. E em S. Jacinto havia um café chamado “Gato Preto”, vá lá saber-se porquê.)

Há dias a Francisca apareceu-me, banhada em lágrimas, dizendo que tinham matado o gatinho preto e ia ser esmagado no meio da rua. O safardana nem cuidou – como em Inglaterra, onde é obrigatório retirar o bicho do pavimento. Lá fui buscá-lo. Depositei-o no jardim e um vizinho, mais dado à função, fez-lhe funeral decente. À sombra de uma árvore.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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