As nódoas do quotidiano

Então é assim: interagindo com os leitores, vou dando razão aos paradigmas tecnológicos em que se revela a felicidade do mundo moderno. A chatice é que o dito, na sua auto-suficiência, mostra que vai indo mal, de tanga e a comer com as mãos. Como se, apesar do Ipad e do Ipod, vivêssemos na Idade Média.

A comprovação chegou-me no mail de uma leitora, vernáculo e acompanhado de imagens. (Dantes, interagia falando, agora estou na fase do virtual.) Dizia assim: «Tomo a liberdade, não sem antes me penitenciar pelo arrojo de lhe enviar fotos da minha rua que nunca vê lavagem, tirando a água da chuva. A Rua do Mirante é o WC público das imediações de Cedofeita. Desde 6.ª feira, dia em que apanhei em plena luz do dia um cagão literalmente com as calças na mão, que 6 poios permanecem à minha porta!

O carro de lavagem das ruas, pelo qual passo todos os dias de manhã, serve apenas para lavar os despojos dos bares. Sempre prefiro os defecantes aos bares (pelo menos não fazem barulho, salvo porventura em dias de feijoada!) Estou a pensar em pedir à Câmara que coloque uma placa no início da rua destinada a “nuestros hermanos”, com os dizeres: “mira, mira, que buena vista”.»

Como vêem, apesar do cosmopolitismo e da internacionalização, andam por aí predadores da qualidade da nossa vida, a quem se ajustam na perfeição as palavras do meu saudoso amigo Castro: «Nosso Senhor fez-lhes o grande favor de lhes levantar as da frente.» É o Daesh caseiro. Enquanto os bandidos matam gente, estes borram paredes e ruas. Como diria a infeliz e graciosa leitora: «Apesar de tudo são melhores.» Entre cagões e assassinos, a escolha é fácil, mas, convenhamos, em cidade que se ufana da civilidade, é uma nódoa. (Para não dizer outra coisa, imprópria de crónica com intenções pedagógicas.)

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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