Cerzir a cidade

Entre as profissões esquecidas havia as cerzideiras. Praticavam a arte de habilidade chamada cerzir, quer dizer «coser de maneira que não se notem as costuras, passajar ou pontear». No entanto, a etimologia não se adaptava à realidade. Mais próxima estava a palavra «cerzido», significando «conserto num pano feito de tal maneira que não se conhece o restauro». Cerzir era, assim, restaurar os buracos da roupa. E acho que o conceito se ajusta às necessidades de uma cidade como o Porto.

Olhando por aí, topamos os buracos no tecido urbano causados por anos de políticas de destruição de espaços, bairros e comunidades. Arrasados, apagados. «Erased», diriam os americanos. E não falo de vazios industriais, já que a desindustrialização constituiu algo que as cidades não poderiam evitar. Refiro-me às ruínas causadas por demolições sistemáticas, especulação disfarçada de bondade social, incapacidade de gestão do solo em função do Bem Comum e não de interesses escondidos. Ou, simplesmente, desamor pelo espírito do Burgo e dos seus habitantes.

Refiro-me ao facto do Bairro das Carvalheiras, destruído há meio século, ainda permanecer como ruína. Tal como partes da Fontinha, da Arrábida, do Leal, do Viriato, do Monte da Bela, da Rua do Sol, de Entre-Quintas, da Pena. E muitos outros. E acho que reabilitação urbana não é só restaurar edifícios, mas também cerzir os buracos físicos e sociais do Porto.

Por isso, vi, com agrado, o anúncio de que o Município vai encetar a cerzidura de um dos maiores vazios portuenses, nas Eirinhas. Obra perfeita de demolição, abandono e centrifugação, poderá representar o início da reconstrução de uma cidade à espera da Redenção. Ou do Renascimento. Se isso acontecer, até ponho bandeira na varanda (a do liberalismo e não a imposta pela Ditadura).

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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