Como S.Tomé

O gazetilheiro Alfredo Simões de Castro (1845-1932) escreveu num dos seus poemas: «Santo Deus! Eu quasi caio, / Fico maluco, desmaio, / Com tão estranha notícia.» No mesmo estado quase cataléptico fiquei, há dias, com a notícia surgida no JN (28.7.16) sob o título “Mirós Museu deve avançar no Porto”.

Ao lê-la, se não estivesse sentado, caía. Para o lado, em choque. Atónito, assombrado. E, como diziam os antigos, que falavam bom português, cheio de estupor. Não é possível. É contra-natura, anti-histórico e ao arrepio de tudo quanto, desde pelo menos D. Manuel I, o Porto (e, de resto, o país) se sujeita.

Tenham santa paciência, mas não acredito que a capital do império mais centralista deste mundo e do outro abdique das 85 obras de Joan Miró e as deixe vir para o Porto. Para a província. «Vinde a nós, ó Provincianos!» (Ramalho, “As Farpas Esquecidas”) tem sido o lema capitalino, sedimentado e assimilado ao longo dos séculos – e, ai de nós, potenciado nos últimos quarenta anos (quando o D de democratizar, do 25 de Abril, deveria significar o contrário). Não acredito, pronto. Só quando vierem os quadros e os vir aqui expostos. Com compromisso firmado em cartório notarial que é a sério (e não «à séria», como dizem na capital).

E, mesmo assim, o acautelatório de Ricardo Jorge (“Sermões dum Leigo”) continua actual: «Ao provinciano – e eu sou-o – arreigou-se-lhe tenazmente a ideia de que os vedores públicos em Lisboa sofrem de miopia particular que os não deixa enxergar tudo quanto transporta a órbita da capital». Acreditar, portanto, que os centralistas , convictos e absolutos, abram mão dos Mirós (que, aliás, nem são deles, mas do país) e os transfiram para o Burgo? Só por milagre superior ao de Ourique. Nestas bondades do Terreiro do Paço, estou pior do que S. Tomé.“

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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