Da Foz velha

Dizia o meu saudoso e distinto amigo Senhor João Alfaiate que «a vida é feita de comentários e relatos» e, pese embora o facto de não querer passar por comentador (mais um), não resisto a comentar mais uma notícia surgida no “JN”. Isto porque ainda dá notícias, frescas, do dia-a-dia. Ponto.

Titulava, portanto, o “JN”: «Criada associação para a defesa da Foz Velha». E adiantava que alguns moradores, tendo «conhecimento de um projecto imobiliário que dizem violar a lei» (a Portaria 323/2013, que concede protecção especial àquela zona), defendiam que a mesma «deve ser tratada com punhos de renda». E têm razão.

A Foz Velha é uma parcela ímpar de identidade, carácter, qualidade ambiental, coesão urbana e tranquilidade, absolutamente essencial ao prestígio de uma cidade que, além de ter de se impor pela diferença e a auto-estima, trava um combate sem tréguas pela competitividade e projecção internacionais. Uma cidade que não pode dormir à sombra dos louros conquistados e do esplendor da «movida» turística, mas cuidar de si. Da sua alma.

A Foz Velha tem sido agredida por construções absurdas que atentaram contra os princípios mais elementares de bom senso, bom gosto e decência. Barbaridades como o «prédio Coutinho» do Passeio Alegre, dos anos 70 (a que ninguém se opôs), o grande imóvel levantado junto da antiga Rua Central, o absurdo arquitectónico que proliferou da Esplanada do Castelo à Senhora da Luz e muitos outros, constituem o exemplo do desprezo pelo espírito de um lugar único e fascinante.

É tempo de refrear os apetites imobiliários, afirmando a consciência de que – no mundo actual – uma cidade vale pelo conhecimento e a cultura. E isso chama-se fazer a ponte entre tradição e modernidade. Com categoria, na rejeição do nacional-caixoteirismo que nos abandalhou.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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