Éolo e maus cheiros

Como o Terreiro do Paço não pára de nos surpreender, vejo-me obrigado a regressar ao gazetilheiro Simões de Castro para expressar o meu estado de espírito: «Sinto-me besta, cavalo, / Estou camelo, estou burro (…)». Assim fiquei perante o anunciado aumento do IMI pela paisagem da casa e a sua exposição ao astro-rei.

Que argúcia e ponderação! Que criatividade na arte de sacar aos tansos da classe média: «E esta lamentável gente, completamente esquecida da civilização, inteiramente separada por todos os vínculos, excepto pelo do imposto (…) paga e como nenhum benefício recolhe do dinheiro com que contribui é pura e simplesmente roubada (…)» (Ramalho Ortigão, “As Farpas”) Perante a substantiva adjectivação acima transcrita nada mais resta do que me sentir lesado.

É que a paisagem de que usufruo – estuário do Douro e Atlântico a perder de vista – vale não sei quantos por cento. E à exposição ao sol, acresce outro tanto. Para o Terreiro do Paço, sou um privilegiado. Um parasita da boa vista e da quentura. Devo, por isso, pagar e não bufar. Estou tramado.

Existem, todavia, dois senões a meu favor: o Inverno e o mau cheiro. No Inverno, da paisagem vêm temporais. Chuva e ventania, estragos, incómodos, inundações e despesas de manutenção de estores, caixilharias e varandas. Nas invernias pago a factura da paisagem. Quanto ao mau cheiro, acontece que, fronteira à minha casa, a ETAR modelo, inovadora (igual à do Mónaco, diziam) noite sim, noite não ou noite sim, noite sim tresanda ecologicamente. Só de janelas fechadas, máscara ou mola no nariz se consegue resistir.

Face à investida do Terreiro do Paço, resta-me apelar a que Éolo (deus dos ventos) me sirva de atenuante e invocar o mau cheiro para desconto de IMI. Que a trampa sirva para alguma coisa. Ao menos.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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