Fábula recente

La Fontaine que se cuide. Às suas 243 fábulas de animais que interpretam a vaidade, estupidez e destempero humanos podemos acrescentar algumas. A mais recente, intitulada “História do Tubarão e do Chicharro”, é assim: «No oceano pouco-Pacífico chamado Europa, conhecido por Mar quase Morto, o deus Neptuno convocou os habitantes para pomposo festim, onde seria eleito o Príncipe. O Campeão. Depois de eliminações prévias, subsistiram 24 candidatos. Acontece, porém, que, na lógica democrática daquele Mar, os direitos dos membros exerciam-se conforme o tamanho e o dinheiro e os graúdos abocanhavam os miúdos, sujeitando-os aos maiores vexames. Assim, os tubarões, preparando o clímax, foram devorando os mais frágeis. Todavia, a partir de certa altura, pelo seu apetite insaciável, começaram a comer-se uns aos outros, até subsistirem apenas o tubarão azul – que se considerava o Eleito – e o chicharro.

Este, pobre e relapso, tido como PIG e habituado a ser desvalorizado, foi fazendo a sua parte e à sorrelfa eliminando os da sua laia. E apareceu, surpreendentemente, a disputar a eleição. No festim final, o tubarão azul procurou por todos os meios – inclusive ilícitos – trucidar o chicharro intruso, que, por artes e manhas, o foi fintando até que, apanhando-o distraído, lhe deu valente mocada no toutiço que o deixou grogue. E foi eleito Príncipe.»

Moral da fábula: nenhuma, já que, no mundo real, os tubarões continuarão a dominar os pequenos. Não obstante, entrevistado na TV sobre o que sentia, um chicharro anónimo respondeu: «Já posso morrer amanhã, carvalho!» (isto dito por explicado, o que não fica bem em crónica séria). E acrescentou: «É a melhor coisa que me podia acontecer.» Ao que o entrevistador retorquiu que também não era preciso tanto para comemorar o triunfo.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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